EU ETIQUETA
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.Carlos Drummond de Andrade
No poema “Eu, Etiqueta”, o poeta Carlos Drummond de Andrade tece uma crítica à influência da publicidade sobre a vida das pessoas.
Os comerciais têm utilizado técnicas das mais sofisticadas para dizer quais são nossas necessidades. Recursos modernos lançam subliminarmente mensagens para projetar desejos e preferências. É preciso, pensar que poucos sãos os valores que orientam a produção da propaganda-publicidade, ultrapassando o campo da moral e mesmo daquilo que costumamos identificar como lícito.
De fato, devemos refletir as mensagens que são dispostas no discurso dos comerciais. Na maior parte das vezes se ocupam em anestesiar consciências para projetar desejos de consumo que não representam nossas reais necessidades. Este fenômeno é típico das sociedades capitalistas que não vêem cidadãos e cidadãs e sim meros consumidores.
O paradigma do que hoje consideramos belo, são sombras iluminadas, por exemplo, as mais das vezes, pelos comerciais de cerveja que assistimos tranqüilamente, enquanto, fixam seus estereótipos; os produtos industrializados que são consumidos com naturalidade, refletem um estilo de vida que a televisão apresenta com as faces rosadas da praticidade nos seus reclames entre um programa e outro; a Moda que uniformizou o estilo de vestir aparece nos jingles das grifes que aprendemos a cultuar, nas etiquetas que gostaríamos de vestir ( as roupas pouco importam, muitos de nós só enxergam os coloridos retângulos geométricos das etiquetas).
Finalmente, não podemos deixar de afirmar que as grandes redes de televisão, muitas delas redes mundiais, são os “arautos da notícia”, dos acontecimentos do mundo. Os fatos ganham, nos interesses dos grupos majoritários da mídia, sua versão segundo o que for conveniente. Nosso telejornal nos trás todos os dias meia-verdades, inverdades e mesmo belas mentiras.
Acho engraçado que nas discussões e debates a maior parte das pessoas tenham as mesmas opiniões e pontos de vista. Basta iniciar uma conversa sobre um tema relevante para sermos absolvidos no mar de unanimidades. Somos todos contra os movimentos dos trabalhadores sem terra e claro, favoráveis aos bons moços que com o “suor do seus rostos” são donos de propriedades, que a um tempo atrás era chamada de feudo (Os feudos foi durante a Idade Média a marca da desigualdade e da exploração). Acreditamos todos que racismo no Brasil não existe, apesar, de nossas piadas e gargalhadas de discriminação. Enfim, basta levantarmos um tema polêmico numa conversa no bar ou em uma sala de aula de alguma faculdade e é só esperar pelos “consensos inteligentes”.
Não é demais destacar que a opinião que vamos ter quando construída, apenas, nessas fontes são meros recortes daquilo que os formadores de opinião decidem. Uma pergunta fica: Os jornais formam opinião e quem forma a opinião dos jornalistas desses jornais? Um pouco de desconfiança faz bem. Na verdade, essa postura cotidiana de duvidar, entre os gregos da antiguidade, era o primeiro ingrediente daquilo que eles chamavam de filosofia.
Pois, a filosofia não era esse arcabouço de conhecimento sobre as coisas mais distantes do nosso cotidiano. Era antes de tudo o saber sobre os problemas do dia-a-dia. Por isso, desconfie, duvide, questione essas certezas etiquetadas. Seja filósofo ao modo dos gregos da antiguidade clássica. E você verá como a filosofia tem essa curiosa façanha de pregar peças.
Não estranhe que ao abrir os olhos para dizer a todos: O REI ESTÁ NU!
A maioria não tire os olhos da comitiva tentando enxergar as etiquetas das roupas invisíveis do rei.




